Reclamo sim, e tô vivendo - Viver para comer (mal)

Minha experiência com alimentação saudável é meio traumática. A meu favor, tenho o fato de até os 18 anos ter morado no fim do mundo e não ter acesso aos fast-foods (o que não sei se faz uma diferença relevante, porque me entupia de bolacha recheada). Digamos que minha mãe também nunca tenha feito muitas coisas pra me ajudar, muito pelo contrário.

Quando criança, eu era tipo o Dudu da Turma da Mônica, sabe? Mas, pelo menos doces, salgadinhos e demais porcarias que crianças amam, eu comia. Acho que o passatempo preferido da minha mãe era me levar no médico pra achar alguma doença em mim, já que eu praticamente não comia comida de verdade e mesmo assim crescia, era inteligente, etc. Minha mãe tentou todos os estimulantes de apetite conhecidos até então, desde o clássico Biotônico Fontoura até um “fortificante” feito de vinho, canela e demais ingredientes que ignoro. Teve também umas cápsulas de alho (BLERGH) e umas vitaminazinhas mastigáveis da Mônica, no formato dos personagens, que até que eram gostosas. Tudo isso parou só quando minha mãe constatou que, em vez de comida, eu comia quantidades industriais de bolacha recheada.

Esses programas tipo Globo Repórter são um horror, porque de vez em quando inspiravam minha mãe a tomar atitudes “saudáveis”. Como o belo dia que ela decidiu que açúcar cristalizado era um veneno pra minha saúde e me obrigou a trocar por açúcar mascavo. Desde pequena tomava leite com duas colheres de Nescau-like e duas de açúcar (abandonei esse hábito quando fui morar sozinha, pra economizar açúcar), então troquei o açúcar “normal” por açúcar mascavo. Socorro! Acho que se colocasse terra no meu leite, o gosto seria igual. :S Passei um mês por essa tortura. Tempos depois, descobri uma utilidade pro açúcar mascavo: fazer bolo (beijo, Jaque). Só então pude superar essa etapa da vida.

Mal sabia eu que o pior estava por vir. Teve uma época que o leite de soja foi uma “febre”, só se falava disso. Minha mãe resolveu aderir à onda, mas em vez de fazer como qualquer pessoa sensata e IR NO MERCADO COMPRAR ADES, ela foi à luta: comprou um quilo de soja e bateu, moeu, triturou, decantou, coou, e ei-lo, o leite de soja homemade. Eu PRECISO mesmo descrever o quão horrível ficou? Só de lembrar me dá náuseas. Como me enfiar goela abaixo ela não podia fazer, distribuiu o leite igualmente em diversas jarras e potes, e “embaralhou” dentro da geladeira, junto com o leite normal, numa clara tentativa de me induzir ao erro. Claro que sempre que me dava conta que tinha pegado o leite errado, jogava fora. No fim ele teve um destino nada nobre: a pia da cozinha. Era realmente intragável. Vai ver por isso que rejeito tudo que é de soja. Além do mais, o leite de soja é bege; o suco de pêssego é bege; o suco de laranja é bege; o suco de UVA é bege. Não aceito uma existência sem corantes, desculpa.

Durante uma boa parcela da minha vida tomei cerca de um litro de leite por dia, o que me dá a falsa segurança que estou blindada contra a descalcificação. E também me dá licença poética pra beber Coca-Cola todos os dias, se achar conveniente. Mesmo assim, tive um lapso de sensatez e só compro refrigerantes aos fins-de-semana. Quando como fora, tento ser saudável, eu juro, mas a indústria alimentícia me sabota. Não sei como é no resto do país, mas aqui o suco é sempre mais ou menos R$1 mais caro que o refri, sem contar que geralmente vem menos. Tentei calar minha consciência tomando Del Valle de lata algumas vezes, quando não estava MUITO caro. Não sei como funciona essas coisas, mas na minha cabeça não faria muito sentido ser mais barato sintetizar substâncias em vez de extrair a polpa de uma fruta que já está lá ok, tem os gastos de cultivo e talz, mas eu não me importo.

Não sei cozinhar, não faço questão de aprender e tenho nojinho de comida crua/sendo feita, pra falar bem a verdade. Ou seja, minha alimentação em casa é feita basicamente de porcarias industrializadas pré-prontas (meu almoço hoje foi nuggets com ketchup, tenho 9 anos de idade). Quando estava trabalhando (HAHAHAHA fui demitida de novo, a segunda demissão do ano, me deem os parabéns e/ou alguns metros de corda pra me enforcar, plis), pelo menos tinha o refeitório da empresa, e sua comida cheia de salitre, BACANA. Dentre as inúmeras (cof) opções, eu sempre preferia peixe ou frango à carne bovina, mas mais por trauma do RU e dos seus “bifes 007”. Sou descoordenada e sempre faço lambança com carnes muito difíceis de serem cortadas. Também prefiro salgados assados a fritos, mas motivada basicamente pela dificuldade de achar uma coxinha que se encaixe nos meus padrões de qualidade. Ou seja, quando faço coisas boas pela minha saúde, faço pelos motivos errados.

Minha filosofia de vida é completamente equivocada: do que adianta viver até os 100 anos me privando de quase tudo que gosto? Prefiro viver até os 50, mas pelo menos me divertindo. Eu seria condenada a uma existência muito infeliz se tivesse que trocar chocolate por um punhado de mato (até porque, como disse o Homer, salada não leva a nada). Ah, claro, lembrei de uma fantásica palavra chamada “meio-termo”, mas as meninas que vivem de dieta sabem que não é tão fácil assim. Enquanto isso, vai um McChicken e uma Coca geladinha aí?

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