Reclamo sim, e tô vivendo - A falsa burguesa

Reclamo sim, e tô vivendo: A Falsa Burguesa

Eu sempre tive uma vida confortável. Nunca fui rica, mas também não posso me queixar que tenha me faltado alguma coisa (fora um ou outro capricho infantil, mas mais porque minha mãe não queria me mimar, não que não pudesse me dar). Minha vida de universitária também foi bem regrada, às custas do meu pai, já que a faculdade era de graça, pelo menos um pouquinho de luxo (e dinheiro pra festas) eu podia ter, né? Por “luxo” entenda morar num apartamento bem localizado, eventualmente comprar livros, CDs e Danoninho, essas coisas.

Já a vida de adulta não está tão fácil, meu emprego não é assim grandes coisas e não posso abusar MUITO da boa-vontade dos meus progenitores, já tô meio grandinha pra isso. Mesmo assim, AINDA não precisei me prostituir fazer malabares no sinal (até porque NÃO SEI fazer malabares, d’oh!), nem morar em algum cafundó.

todo mundo acha que minha casa é assim...todo mundo acha que minha casa é assim...

Mas o mundo é um lugar bizarro e as pessoas mais ainda. Calhou que, nos dois empregos relativamente estáveis que tive (esse e o anterior), precisei trabalhar com pessoas de uma condição sócio-econômica diferente da minha (pra não dizer inferior... ok, quem estou enganando? É SIM inferior). E se vocês acham que só pobre que é discriminado, digo que #classemediasofre também.

Minha aparência não é grandes coisas, não uso roupas e acessórios de grife nem nada disso, muito pelo contrário (se bem que a teoria da minha mãe é que pobre que gosta de ostentar, rico SABE que é rico que não precisa ficar mostrando). Eu só tenho um blazerzinho de veludo, que uso pra ir nas entrevistas de emprego pra parecer uma pessoa séria. Mas ninguém mais se importa com isso e aparece com os casacos de gola de pelinho (sério, eu ODEIO esses casacos, acho um atentado ao bom gosto). Daí fico parecendo gente diferenciada, mas até aí não é culpa minha a falta de bom senso dos outros.

Ok, todo mundo se conhece e logo começa a conversar. Minha tolerância pra assuntos banais é bem alta, e eu diria que em algumas ocasiões até prefiro assim. Não, não fico pagando de intelectual e falando difícil, converso numa boa sobre a novela, o tempo, o preço do açúcar, essas coisas (só não interajo muito quando o assunto é marido e filho pela minha total ignorância em ambos). Mesmo assim, se falo alguma palavra com mais de quatro sílabas causa um certo frisson no ambiente, mas fazer o quê? ¯_(?)_/¯

Outra coisa que devo evitar pelo maior tempo possível é dizer onde moro. Moro num bairro bom (para os conhecedores de Curitiba: Água Verde), e isso é quase um crime. Porque ter um traficante na sua rua, ok (quem sabe na minha também tem e eu que não sei, haha), mas morar a 10 minutos do Centro, você é A burguesa. Mal sabem eles que divido com dois desconhecidos (porque gente, amigo NÃO é a mesma coisa que família, aceitem isso), que é minúsculo e que nem temos móveis direito. Saio e volto pra casa de táxi, meudeus, “ônibus existe pra quê?” Esses dias me chamaram de filhinha de papai só porque tenho preguiça de ir pro Centro a pé e vou de ônibus. Mas que porra de conceito equivocado é esse de filhinha de papai que anda de ÔNIBUS? ¬¬

mas na verdade é assimmas na verdade é assim!

Chegou num ponto que tenho vergonha de dizer que uso esmalte importado e que o menu do meu celular tá em francês, não que eu fale isso pra todo mundo a troco de nada, apenas me limito a responder o que me é perguntado. Esses dias um colega meu falou que odeia Harry Potter, falei pra ele que se ele lesse ia gostar, que é bem melhor que o filme, blá blá blá... Logo vi que seria tempo perdido argumentar. Se dou a entender que leio mais de um livro por ano, logo sou considerada A culta.

Sei que em muitos casos tive sorte, por exemplo de ter nascido numa família que sempre incentivou a educação, e também num ambiente em que nunca precisei trabalhar pra me sustentar, por aí. Nascer pobre não é escolha, mas PERMANECER pobre (pelo menos culturalmente falando) é, sim. Aqui tem quiosque de biblioteca até no terminal de ônibus, não custa nada ler e se informar um pouco. Quando ao fato de eu “morar bem”... Quase tive que sair do apartamento que estou, e isso meio que virou um drama coletivo, todo mundo tentando me ajudar. E a vergonha de ser escrota e dizer que não moraria na periferia mánemmorta? No fim tudo se resolveu, agradeci os palpites de todos humildemente. E continuei morando no meu apartamento carééérrimo.

Sei também que a vida da maioria das pessoas É diferente da minha, geral tem marido e filho pra cuidar, o que acentua ainda mais a sensação de ser um “ponto fora da curva”. No entanto, tento viver com todos pacificamente, não vejo razão pra criar atritos por coisas tão pequenas. Sem contar que a gente nunca sabe o dia de amanhã, não posso criticar pessoas e situações, vai que algo semelhante me acontece em breve? A única coisa que quero é uma chance pras pessoas me conhecerem, julgar pelas aparências, pra mais ou pra menos, não é um bom negócio.

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