Profissional Made in Brazil: Arthur Bobany (Aquiris gX)

Fala galera! De tempos em tempos consigo trazer para vocês uma entrevista com alguém que trabalha na área de desenvolvimento de jogos no Brasil, e o papo da vez é com o grande colega de trabalho Arthur Bobany.

Bobany atualmente é o Lead Game Designer da Aquiris Game Experience e topou participar desse bate papo para contar um pouco de como começou na área e algumas curiosidades. Mas principalmente explicarará a função de um game designer dentro de uma equipe de jogos. Vale a pena conferir essa entrevista que ficou bem bacana e espero que vocês gostem e aproveitem essa troca de conhecimento que é feita especialmente para vocês que acompanham o deixa.

deixadenerdice Bobany Idade: 29 Cidade/Estado: Teresópolis/RJ (Atualmente morando em Porto Alegre/RS) Formação: Graduação em Desenho Indrustrial com ênfase em Design Gráfico pela Universidade Estácio de Sá. Profissão: Lead Game Designer Portfolio: arthurbobany.com

Quando você se interessou em começar a trabalhar com games?

Eu sempre me interessei pelo desenvolvimento de games, lembro de gastar horas a fio com um cheat code do Sonic 2 no megadrive que permitia colocar objetos de cenário nas fases. Eu criava pequenos levels e depois jogava nas minhas próprias criações.

Meu primeiro contato com um editor de levels propriamente dito foi na época do Half-Life, quando eu ficava fuçando no editor de mapas. Lembro até hoje de apresentar, num trabalho de física do segundo grau, uma réplica virtual da fachada da escola. O legal era acionar um botão no level e a escola era invadida pelos aliens do jogo enquanto o exército vinha combatê-los.

Mas começar a pensar em trabalhar mesmo com jogos, de forma profissional, foi no fim da faculdade – enquanto trabalhava no meu livro Videogame Arte. Ali foi que eu realmente comecei a entender como o mercado funcionava, quais eram as possibilidades e o tamanho da indústria.

Fiquei um tempo tentando trabalhar como designer gráfico mesmo, mas eu gastava todas as minhas madrugadas estudando e no escritório estava pensando em como resolver a modelagem de um asset ou a otimização de um level. Eu parei de trabalhar com design gráfico e me dediquei aos estudos. Um ano depois fui contratado pela Ubisoft e um pouco antes do fechamento dos estúdios da empresa no Brasil vim pra Aquiris.

Como a sua formação ajudou a chegar nessa área de trabalho?

A faculdade foi essencial pra mim, não muito pelo diploma, mas por ter aprendido como trabalhar em equipe, como planejar e projetar qualquer coisa que eu domine (e aparentar saber mais de assuntos que não domino).

Como sempre dizem, “quem faz a faculdade é o aluno” e eu sempre busquei me concentrar em absorver o máximo do que fosse útil da vida acadêmica e me expor ao máximo ao mercado de trabalho. Meu primeiro estágio foi logo no terceiro período da faculdade e desde então eu nunca fiquei sem trabalhar até me formar, e isso foi crucial para mim.

Claro que eu conheço pessoas altamente capazes que nunca passaram pela faculdade, quem começa cedo pelo caminho certo, mas para a grande maioria a faculdade vai ajudar a pegar todo o seu entusiasmo e criatividade e aplicar de maneira eficaz. Só fique atento em focar no que realmente importa, e corra atrás das oportunidades: estágios, concursos, palestras, contatos. O pior que um aluno de faculdade faz é fazer só o que o professor pede.

Como funciona o papel de um Game Designer no desenvolvimento de um jogo?

Dependendo do envolvimento dele no projeto ele pode ser aquele que vai configurar e criar os sistemas do jogo ou será um “condensador” de idéias e mantenedor do escopo do jogo. O designer de jogos geralmente é responsável por juntar as possibilidades técnicas com as ambições artísticas em uma fórmula que pode ser submetida a um processo de produção e que resulta num jogo.

O papel mais importante do designer de jogos é saber comunicar sua visão para a equipe ao mesmo tempo que sabe ouvir as opiniões da equipe e demais envolvidos no projeto, filtrar e traduzi-las em processos que possam ser implementados. Além é claro de o melhor lugar para um game designer é estar sentado do lado da equipe trabalhando na implementação das mecânicas do jogo. Só mesmo em equipes maiores, que precisam de alguém pra organizar o trabalho, é que um game designer se afasta da produção.

Conte um pouco como foi a experiência de trabalhar na extinta Ubisot Porto Alegre e seu trabalho atual na Aquiris Game Experience.

A Ubisoft Porto Alegre foi o meu primeiro contato com a indústria de fato. Lá trabalhei com gente que já tinha muita experiência – trazida da Southlogic Studios – além de ter acesso a muitas informações e ao funcionamento de uma gigante como a Ubisoft. Por mais que o estúdio de PoA nunca tenha sido de fato integrado à multinacional, podemos ter a experiencia mais importante que tive lá, na minha opinião: Ter um projeto cancelado.

Na Ubisoft minha maior lição foi ter a humildade de saber que isso é apenas um trabalho e que eu não sou o “maior game designer mais genial da terra” e, claro, a oportunidade de ter conhecido uma equipe que fora capaz de criar coisas fantásticas.

Já na Aquris eu pude ver o que acho, hoje, ser uma outra lição importante: Não tente dar um passo maior que suas pernas, além de conhecer outra equipe capaz de criar coisas fantásticas. Tenho muita sorte e orgulho de fazer parte desse time e sempre fico feliz de ser surpreendido pela qualidade do trabalho realizado aqui.

Quais projetos nesse tempo trabalhando na indústria de jogos que você tem mais orgulho de ter feito a parte de game design?

Eu tenho orgulho de todos os projetos, sejam eles aqueles onde deu tudo certo ou aqueles onde deu tudo errado. Um trabalho que está sendo muito gratificante é o nosso FPS Critical Mass.

Apesar de ser um jogo bem padrão para o gênero isso nos permite se concentrar em criar a melhor experiência possível. Além de ser o maior projeto que eu já me envolvi até hoje ele tem sido um desafio constante e muito recompensador.

Atualmente você está trabalhando em um jogo de tiro chamado Critical Mass voltado para o mercado internacional. Quais são as maiores dificuldades de trabalhar no desenvolvimento de um game desse porte?

A maior dificldade no momento é a nossa própria inexperiência. É muito difícil pra quem está de fora de um desenvolvimento desses compreender as dificuldades escondidas no processo. muitas vezes eu vejo pessoas com uma idéia de fazer um jogo “com um combate parecido com God of War” sem realmente saber o processo pra se chegar naquele resultado. A cada etapa nova do projeto nos deparamos com pequenos detalhes que escondem implicações pra toda a produção:

Por exemplo recentemente tivemos que refazer todo um sistema do jogo para resolver a seguinte questão:

Como vamos fazer pro som dos passos do jogador serem de acordo com o a superficie que ele está? Muitas pessoas vão achar uma coisa simples, mas elas não tem noção que deve-se levar em consideração vários sistemas do jogo, da maneira com que os modelos são importados pra dentro da engine e as colisões configuradas para a forma com que a entidade do jogador “existe” no cenário. E se uma implementação dessas for feita sem todas as considerações, pode gerar muito retrabalho, implementações incorretas ou bugs. O mais importante em uma equipe é manter a comunicação e detectar possíveis problemas cedo.

Deixe algum recado ou dica para o pessoal que está começando a engatinhar nessa área de desenvolvimento de jogos e pretende trabalhar com game design futuramente:

O recado que eu sempre dou é aquele: vá em busca dos seus objetivos, tenha determinação e disciplina. Saiba a diferença entre jogar e desenvolver jogos. Sendo mais prático, começar como game designer é muito difícil, eu mesmo havia visto isso e estudei level design, que é uma porta de entrada na indústria.

Hoje em dia as coisas estão um pouco mais fáceis, não que a indústria seja mais receptiva, mas as oportunidades estão se multiplicando. A Unity é uma ótima porta de entrada porque muitas empresas de publicidade e web buscam integrar interações em suas campanhas e podem-se achar oportunidades na área.

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O deixadenerdice agradece ao grande Arthur Bobany por ter concedido a entrevista para o blog e a gente espera que esse conhecimento seja bastante útil para todos vocês. Até o próximo Profissional Made in Brazil e aproveitem o espaço nos comentários para perguntar qualquer coisa ao Arthur que ele vai estar de olho nos comentários desse post.

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